Quinta-feira, 6 de Maio de 2004

Um sentir em 3 visões

paineira3.jpg


Ganância


Chora a magistral paineira,
           suas folhas digitadas
em desespero agitam-se nos galhos,
as flores róseas espalham-se pelo céu,
           em gritos de dor.


Homens em manobras desenfreadas,
            em prol do progresso
cravaram-lhe no tronco
            o maldito machado.


Num último suspiro,a paina,
 como floco de algodão
                                  flutua
e chega ao solo tingida de vermelho,
            despida de leveza.


Crianças dantes admiradas com a suavidade do vôo,
             no momento do pendor
espelhavam na face pavor.


Atônitas indagavam ao pé do vento,
porquê os homens
                       mataram
a frondosa paineira?


Confusas interrogavam-se
                         porquê...
tolheram a vida
destruíram os ninhos
            onde pássaros outrora
brindaram
            aqueles mesmos homens
com seus doces cantos?


Não podem compreender,
tampouco, eu o posso...
Até onde a ganância....
           leva os homens.

Andréa Motta
11/08/03


 




A Morte da Paineira
 
Enquanto chora a paineira
Periquitos assistem sem gritos
Tombar ao chão tão faceira
A paineira em lamentos aflitos;


Periquitos assistem sem gritos
Em golpes batendo ao tronco
A paineira em lamentos aflitos
Nas pancadas de machados broncos;


Em golpes batendo ao tronco
Arremessam as folhas e os flocos
Nas pancadas de machados broncos
Desprendendo caindo em blocos;


Arremessam as folhas e os flocos
Ao chão vão se misturando
Desprendendo caindo em blocos
Enquanto as aves esvoaçando;


Ao chão vão se misturando
Como se estivessem fugindo
Enquanto as aves esvoaçando
Não mais se iludindo;


Como se estivessem fugindo
Finda manhã, alva que apavora
Não mais se iludindo
Enquanto chora a paineira.


Marcelo


requiem arborescente



A noite calma segue contrária ao dia conturbado
Estava escrito, a floresta seria consumida
As labaredas haveriam de arrancar a seiva dos anos
O vento cumpriria o carrasco dos cascos antigos


A floresta ardeu com gritos de fumo espesso
Cantou o seu próprio requiem no crepitar da madeira
Morreu lá, longe, a norte de nada
Expirou sem expressão que mostrasse ressentimento
Ou sequer a vontade de existir


E os lancinantes sons desta orgia luminosa
Invadiram o mundo
Pintaram o céu de um azul fosco e tornaram o sol macilento
Quem foram os assassinos?


O sonho teria que acabar, o profeta assim o disse
Recortes de verde solarengos sobre bases castanhas
Anos e anos a almejar ver mais além
Para lá, por sobre a torta linha do horizonte
Braços auto decepados, abandonados, gangrenados
Raízes demasiado profundas numa terra que prendia
A liberdade, o desejo de voar


O fogo carboniza a paixão e traz a treva


A árvore
A árvore nasceu, despontou, cresceu, ganhou e perdeu
Ramos folhas beijos do vento estações
Ebriedades de chuva e o calor terno da terra
Vergou amadureceu e conheceu todas as crianças dos homens
Nomeou os montes e o bichos
Contemplou a paz do que não se vê com olhos
Amou o amor e fecundou trezentas outras árvores sem o saber
Tossiu na poluição do progresso
E viu o ciclo do tempo a rodar inquieto à sua volta


A árvore
A árvore viu um bípede com uma pasta debaixo do braço
Regar de petróleo dourado a sua perna
E acender um isqueiro
E ter prazer
Quando o fogo invocado a violou


A árvore
A árvore não verteu uma lágrima
Apenas teve um arrepio, um estremunhar de folhas drogadas
Despediu-se do seu amante inocente e assassino
Era dia e cantou o céu de cinzentos esfumeados


O tempo continuou os seus círculos infernais
O dia moldou-se em contexto reflexivo
Espelharam-se tristezas sem causa nas caras das pessoas
A natureza quedou-se inexpressiva e fez lentamente vir a noite
Calma
Sem vento


Sentado constato a terra podre que nos agarra
Louco cuspo a vergonha da raça na minha cara
Mas da boca só sai a seiva da árvore
A seiva da árvore
A seiva da árvore
O sémen da árvore
A ilusão humana


Nos olhos fechados pela floresta da treva
Ecoa angustiante e sagrado
Da árvore o canto apaixonado


Sofre-se e pressente-se que se sofreria mais se não se sofresse


Pedro Moura


publicado por Andrea Motta às 13:28
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De Andra a 7 de Maio de 2004 às 02:47
Para Júlio: Muito obrigada pelo carinho diário, fico muito feliz com tua presença.
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