Sábado, 29 de Maio de 2004

Anonimato

Curitiba1.JPG


 


Caminhos cruzados entre flores e paralelepípedos, os olhos percorrem a fachada dos antigos casarões, símbolos de uma era de riqueza cultural.


 Ana Maria relembra o chá das cinco na Schaeffer, onde se encontrava a melhor coalhada da cidade, o burburinho no salão, a mistura de notícias, políticas e/ou sociais, as anedotas sobre a canseira do fórum, poesia e tanto mais...


 Com ar nostálgico, entra numa antiga livraria e dirige-se à estante de livros jurídicos; não os encontra no mesmo lugar, fica olhando o vazio. Não que as prateleiras estivessem desocupadas:  nelas, apenas se encontra material escolar. Então indaga à vendedora a nova localização daquelas preciosidades...


 


- Com ar perplexo, como se Ana Maria houvesse saído de um mundo desconhecido a ela, a vendedora responde-lhe ligeiramente – “Não comercializamos este tipo de obra !”


 


Ana permanece estática por alguns instantes, surpresa com a notícia, sente os olhos marearem e volta à rua. Caminha lentamente naquela mesma calçada que tantas vezes subiu e desceu em passeatas, em direção ao trabalho, à faculdade ou,  simplesmente, pelo prazer de caminhar, de respirar.


 Hoje, no entanto, sente-se como uma barata tonta (sabe-se lá se baratas ficam tontas! – mesmo assim parece uma), seus olhos percorrem rapidamente a arquitetura, a calçada, os canteiros...e os rostos...Ah os rostos!


 Continua ali por um tempo , anônima, como sempre quis  estar. É a primeira vez que consegue... quantas vezes assim se imaginou: um rosto qualquer entre tantos outros.


 Mas hoje, estando exatamente como queria - sendo ninguém meio à  multidão -  chorou.


 Sim chorou, porque percebeu que durante os últimos 15 anos viveu em um mundo fantasioso, mesmo que aparentemente fosse tão real.


 


Percebeu que está tão perdida e só hoje como esteve, exatamente no mesmo lugar, uma década e meia antes. Diante de seus olhos, desfilam todos aqueles anos de trabalho árduo, sucessos , realizações e reconhecimento profissional, decepções...


Sim, foram tantas as decepções, que Ana Maria pode ouvir perfeitamente  o estalido ígneo do silêncio queimando o seu peito. Esteve cega, não obstante, felizmente, não tenha  deixado corromper-se pelo brilho do ouro.


 Só o sempre procurado anonimato seria capaz de arrancá-la do transe de ser alguém por seus próprios méritos.. Sim, era isto que obstinadamente buscara durante anos a fio, e para quê?


 


 - “Onde esta busca me levou?” Indaga-se agora que encontrou o anonimato.


 


Reflete: “O que pretendo fazer da vida sendo eu apenas eu e mais nada? De que me serve agora o conhecimento acumulado ao longo destes anos todos se os fechei no baú da minh’alma e, conscientemente, recuso-me a encontrar a chave para reabri-lo... ?”


 


Em resposta, diz a si mesma: “Nunca imaginei,  inconseqüente, que ser apenas um rosto em meio à multidão fosse tão dolorido e me levasse a tantos questionamentos sem respostas.


 Nunca vou crescer (não quero mesmo crescer), mas preciso encontrar um caminho, preciso me sentir viva! Ser anônima não pode ser sinônimo de morte. Continuo sem respostas.”


 


Ana Maria passa as mãos por sua face, enxuga as lágrimas, respira fundo e continua caminhando entre os antigos casarões, buscando no estilo arquitetônico as beiras e eiras, nas varandas a jardineira e na calçada os candeeiros...sorri, observando o corre-corre das pessoas absorvidas pela escassez de tempo, ensimesmadas.


 Com o entardecer, sente a brisa tocando-lhe suavemente a pele, pode ouvir em seu murmúrio palavras com as quais há algum tempo tingiu folhas e folhas de papel, repetindo-as baixinho :


 


“Como ousa tentar me silenciar, quando em mim as palavras fluem até mesmo sem que eu as perceba? Como ousa tolher a minha voz arrancar dos meus dedos cada palavra parida? Ate-me (se te fizer feliz). Jogue-me numa cela escura e suja. Nem assim me calará!.


Não me condene. Não me amordace. Deixe-me exteriozar meu sentir. Minhas palavras (reflexos de mim mesma) serão sempre livres”.


 


Percebe finalmente,  que é seu próprio algoz!


Agora, livre de seus fantasmas, volta a viver.


 


Andréa Motta

publicado por Andrea Motta às 02:12
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