Antes sua voz
era eloqüente,
Bradava
revoltas
e anseios
seus punhos cerrados,
sempre audaciosos
onde tudo era sonho,
desconheciam,
os efeitos do poder.
Hoje,
articula dali,
articula daqui...
e ao povo,
o mínimo do mínimo
salário de fome
e, PT saudações...
PT saudações?
Sim, mas ao malogro
e à mediocridade!
Andréa Motta
30/04/04
Quando desaparecerem todos os fantasmas
que assombram o lago azul dos pirineus
vozes em côro, tomadas pela emoção,
entoarão uma suave melodia.
Será o fim da dualidade que dilacera
a profundez dos sentidos.
Neste momento ímpar, as montanhas
cobertas pela neve se abrirão em sorrisos plenos.
Num passe de mágica, a noite antes densa
será coberta por um fino véu rendado
e invadida por pássaros em revoada
Neste instante, anjos com suas harpas
indicarão as veredas, escondidas na cadeia
de montanhas, que conduzirão para casa.
Andréa Motta
17/12/03
Nota: Há alguns dias Maurício Requião, jovem e magnífico poeta baiano presenteou-me com esta bela poesia, o que muito me emocionou. A publicação dela, pelo autor, no site Os Novos Autores, desencadeou a publicação de outras belíssimas trovas, algumas feitas de improviso no próprio quadro de postagem, numa interação gostosa de ler, ver e participar. Publico abaixo a seqüência de Trovas ou Quadras e seus respectivos autores. Agradeço mais uma vez ao Maurício o presente, bem como, aos demais poetas e amigos esse momento de descontração, Obrigada. (Andréa Motta)
Mesmo estando ainda nela
Muitas vezes sou surpreso
É uma fase muito bela
Mas é bom saber o peso.
Maurício Requião (for me)
O peso da juventude
só o tempo nos dirá.
Mas, antes que o tempo mude,
é melhor aproveitar.
Paulo Camelo
Juventude é coisa boa
anos-dourados de luz
mas ela se acaba à toa
nos deixa o peso da cruz...
-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.
Os anos da juventude
são plenos de amor e paz...
e hoje eu penso, amiúde
que eles não voltam jamais...
.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.
Ser jovem é ser apressado
viver a vida, veloz!
Ser velho é olhar o passado
e ver quanto estamos sós...
lisieux
Só se fala em juventude,
juventude é muito bom
inda lembro em plenitude
dos sabores de batom
.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.
O corpo do jovem ferve
com a ânsia de aventura
e eu aqui com minha verve
relembrando com fissura.
Michel Baruki
Juventude é desafio
e atitude sem pensar...
Atira-se em qualquer rio;
depois aprende a nadar!
Reinaldo N. Luciano
Nos olhos um intenso desalento
nas mãos gestos vagos
na alma a melodia amena de um piano
Minha canção me conduz a versos
de rimas tristes e incertas
Invadida pelas notas musicais,
como barco a deriva ao sabor do vento brando,
assobio baixinho imitando o trinar de um pássaro
Sou mera espectadora
no burburinho da platéia
Vozes anônimas de calor fugaz
consagram o cálice desafinado
O piano com arfar cadenciado
soleva os acordes em sublime simetria
entre a música e a saudade
Epopéico num só movimento
o som se expande
no vale azul da percepção
purificando-a
Sensível ao vinho proibido
sem perder a musicalidade,
como viração acariciando o rosto
resiste a fluidez das palavras.
Andréa Motta
03/09/03
Na penumbra da cidade
brilho de lantejoulas
seios desnudos
lábios pintados de carmim
no corpo lanhado
tatuadas as marcas do desamor
Escoriações
hematomas
carne rasgada
alma amargurada
Nos desvios do tempo
violência doméstica
violência urbana
Nas esquinas um olhar
de menina amendrontada
sem lágrimas nem sorrisos
apenas o jogo da sobrevivência
Sombras escamoteiam
o medo
no desenho da calçada
Rostos anônimos
gigolôs, prostitutas
sofismam pelos cruzamentos
escandalizando crentes
loucas sombras funambulescas
na solitude noturna
conspiram versos desencantados
num pacto com o diabo
Mas o tempo leva sem remorsos
o silêncio da noite
as mãos vazias
a dança do neon
na cauda do vento
por um instante sonhos adormecidos
insinuam-se nos olhares castigados
ameigando-os
Não importa
onde pouse o olhar
não importa
a identidade
nem o coração partido
Não importa
a desventura
nem as portas fechadas
cada qual segue o seu destino.
Andréa Motta
02/10/03

Não quero deslizar por arroios
de sonhos e alquimias
basta deste silenciar de letras opacas
deste voar descompassado
sem brilho
sem par
ou abrigo
Não quero ouvir as horas
nem passa-las em movimentos controlados
basta desta inatividade
em vidraças elegantes
quando intimamente só há revolta
Basta desta doação desmedida
desta entrega incólume
Chega de desejos contidos
desta sofreguidão valorizada
Chega!
Chega desta guerra de braços vazios
e palavras mutiladas
Desta conduta dissociada
flagrante desventura simulada
Atitudes
urgem atitudes
sem perplexidades
apenas verdades
alheia a conceitos
ou idades
Andréa Motta
14/10/03
Breve Partida
Saudade densa
s
a
l
t
a
n
d
o
da menina dos olhos.
Ricardo Mainieri
Saudade espessa
r
a
s
g
a
n
d
o
a pupila da alma.
Andréa Motta
Saudade adaga
a
b
r
i
n
d
o
o véu das córneas.
lisieux
Saudade amarga
s
a
l
g
a
n
d
o
o céu da alma.
Jeanete Ruaro
Peixe no aquário
gato a espreita
passarinho cai do ninho
gato na espreita
ursinho de pelúcia na gaveta
pele de pessêgo
pêlo em riste
flor de liz dependurada pela raiz
No avesso do espelho
a lua despida sorri
ao gato a espreita
do jantar
Andréa Motta
Ó pura exaltação do meu viver*
canção de amor que brota das entranhas
que fala de passagens tão estranhas
que aviva as emoções do meu querer
canção de amor, perfeita, inenarrável
que sai da minha alma e que se espalha
de notas quentes, queima igual fornalha,
com uma melodia incomparável.
Canção de amor, qual pedra cristalina
foco de luz, guardado na retina
que exalta a tua imagem tão querida
Canção que mostra o amor que te dedico
que faz-me ser feliz, fecundo e rico
canção de amor que embala a minha vida.
* verso de Paulo Camelo
lisieux
BH – 23.04.04
03h06m
Nota: Poesia inspirada no soneto Canção de Amor de Paulo Camelo (ver abaixo)
É moda
nada se cria,
tudo se transforma.
Clonam-se seres irracionais,
bem como, os racionais
Clonam-se idéias
e ideais
Mas, é moda,
e daí
se alguém levar
vantagem...
Tudo passa mesmo
a ser igual
neste mundo tão
desigual
Onde nada se cria,
tudo se transforma
como se a vida fosse
mera
aparência
Ou um panfleto, descartável
ou quem sabe...
uma progressão aritmética
onde se calcula
o preço da corrida...
Tenho pena,
mas é moda
um vale tudo
desenfreado
E...
As minhas inquietações
que se explodam...
importa mesmo é reproduzir
em qualquer escala
Afinal,
na
natureza
nada se cria,
tudo se transforma.
Andréa Motta
21/04/04.
Canção de amor, suave, terna, pura,
que sai da minha boca aos borbotões,
canção de paz, rainha das canções,
és fonte de beleza e formosura.
Divina forma de exaltar o amor,
imenso amor que brota da minh'alma,
suave melodia que me acalma,
és bela, forte, plena de fervor.
Se sais da alma pura e cristalina,
em tons e semitons tu tomas forma
e mostras a harmonia do teu ser;
ao mundo te apresentas simples, bela,
e, cristalina, te manténs perfeita,
ó pura exaltação do meu viver!
Paulo Camelo
Nota: Paulo Camelo é um poeta de mão cheia, sonetista de impar sensibilidade. Com diversos livros publicados no Brasil. Para conhecer outras obras do autor basta acessar o site da Magriça , a Notívaga e Jardim de Poesia (no geocities)
(Porque tu deixas em mim tanto de ti - Pedro Abrunhosa)
É p'ra ti que escrevo, nesta manhã chuvosa
porque tu deixas em mim tanto de ti
me fazes sentir tua alma no balanço das folhas,
no vôo irriquieto das andorinhas
É p'ra ti que escrevo, no reflexo do espelho
pois é na inversão da imagem que teus dedos sorriem
porque tu deixas em mim tanto de ti
no silêncio das madrugadas.
Porque tu deixas em mim tanto de ti,
é p'ra ti que escrevo, por acreditar que além da mente
o corpo também voa, e cada passo deixa de ser
um sonho cruel no rastro de teus segredos.
Porque tu deixas em mim tanto de ti,
é p'ra ti que escrevo, para te dizer que aprendi
com este misto de saudade e ansiedade impregnada
na ausente presença delineada na janela embaçada.
É p'ra ti que escrevo, na fechadura do instante,
porque tu deixas em mim tanto de ti
na tua voz rebelde de poeta, no desejo apertado
de abraçar o vento e ancorar tua nau inquieta.
Porque tu deixas em mim tanto de ti, é p'ra ti que escrevo
para que saibas que no leito das tuas palavras
eu me deito e encontro sossego, seco meu pranto
e adormeço na saliva que do teu peito brota.
É p'ra ti que escrevo
para desvendar tua teia sagrada
para entender por que tu deixas em mim tanto de ti
porque teces a luz da manhã e preenches meu olhar vazio.
Andréa Motta
Como notas musicais,
ouço os profundos acordes
que tua ausência executa
na essência do meu ser.
Conservo a música
da mesma forma,
que ainda sinto teus sentidos,
tua pele arrepiada,
o teu toque imaginário...
E, tua respiração ofegante.
Como sonata,
ainda trago em meus olhos,
teus lábios ávidos
em busca dos meus,
a tua lingua....
E, teus olhos cheios de brilho
apesar do cansaço.
Esta insensatez
de sentir sem entender...
a metamorfose da água em vinho,
este mundo tão novo em meu peito,
faz-me confusa,
Inconclusa.
Esta tua presença amiúde,
tão cálida,
tão forte mesmo que ausente
de tão melodiosamente silenciosa,
transporta,
transmuta...
Sonhos em saudades....
Andréa Motta
Junho/2003
Odeio hipocrisia
inverdade
boca pequena
imaturidade
fantasia
rendada
Odeio o pequeno príncipe
saia rodada
boca pintada
carnaval
e a virgem maria
Quero meu corpo molhado
lingua devorada
chocolate derretido
camisa desabotoada
Quero
explosão
desgoverno
linha infinita
desafio
Não quero
competição
apocalipse
cereja
nem
amizade
enlatada
Quero
o feitiço
dum
chamego
e
pêssego
açucarado
Prefiro o doce amarrado
à falsa afinidade
Andréa Motta
17/04/04
Sigo em peregrinação as batidas do tempo
atrás ficam pálidos inimigos
ocultos em fragrâncias exóticas
Na face marcada
risos e lágrimas
causa e efeito
de sonhos desfeitos
Sem medo, como menestrel
deixo vibrar o coração
nas cordas da solidão.
Andréa Motta
09/09/03
Talvez eu pudesse escrever lindas rimas
da mais pura poesia.
Todavia a singeleza da poesia
em nada serviria se não retratasse
os ecos da minha alma.
Na minha alma,
a caneta não encontra palavras macias...
procura...procura
só encontra ecos da minha falsa euforia.
São ecos fortes e agudos
a repetir sem parar
não cale.. brade,
grite o mais alto que puder,
esperneie
mas não pemita que sufoquem a ternura
que há em ti.
A caneta permanece estática
os ecos cessam
minha voz emudece
As lágrimas são a única resposta.
Andréa Motta
maio/03
Silhuetas delineadas a pó de arroz
rasgam o oculto do espelho
não tenho voz
apenas o vento esvoeja no tempo
cerrado pelas minhas mãos vazias.
Nas profundezas do silêncio
o reflexo duma floresta de algas
avermelhadas
D'onde emergem sorrateiras verdades
O mar não aniquila nem suga, sustenta.
Não tenho voz, tenho uma força que impele
endorfina da palavra viandante que não disfarça,
oscila, é verdade, feito areia solta pela brisa
assinalada pelas horas.
Não tenho voz, em resposta ao tempo
há uma força que impele e medra,
exorciza medos como ficção bordada
na safira dos olhos.
Andréa Motta
27/11/03
Tenho saudade da época
em que acreditava ser Cinderela
tinha nos olhos a luz do amor
nos lábios um sorriso sereno
no rosto aquele ar alegre
de quem acredita nos sonhos
e os persegue;
no peito carregava a certeza
de que meus braços
o mundo abraçavam
Hoje,
Trago nos olhos
lágrimas
no rosto
o peso dos anos
e o coração
em retalhos
Andréa Motta
09/09/03
Se a terra é tão azul
e seu chão tão vermelho,
por quê tantos rostos sem nome?
por quê no trajeto de tantos sonhos sem regras,
o Homem...
Se perde em tanto desamor?
Se os rios correm para o mar
e suas águas são tão cristalinas,
por quê o Homem corre contra o tempo?
Se os desfiladeiros têem fendas
e suas rochas são atalhos de cândido marrom,
por quê os Homens clamam tanto por Justiça
quando matam sem pudor?
Se as florestas são tão verdes
e seus frutos alimentam,
por quê os Homens furtam para cevar
a fome ?
Se música e a poesia encantam e
embalam os sonhos,
por quê os Homens não as deixam fluir
como sinfonia tatuada e fomentam a paz?
Se o mundo fosse perfeito e todos vivessem
dos frutos que a terra nos dá...
sem guerras, sem mortes, sem rebeldias
como se fosse o éden
será que os Homens ainda conseguiriam sonhar?
Andréa Motta
junho/2003
Como ousa tentar me silenciar
quando em mim as palavras fluem
até mesmo sem que eu as perceba?
Como ousa tolher a minha voz
arrancar dos meus dedos
cada palavra parida?
Ate-me
(se te fizer feliz)
Jogue-me numa cela escura e suja
Nem assim me calará.
Não me condene
Não me amordace
Deixe-me exteriozar meu sentir.
Minhas palavras
(reflexos de mim mesma)
Serão sempre livres.
Andréa Motta
17/08/03
Quero ser o Homem confiante,
Sem receio de suor nem pudor de pó.
Um Homem que sabe do Triste e do Belo,
Do Amor e do Ódio, mas um Homem Só.
Quero, das lutas, a energia da raiva, dos armistícios, a alegria,
Quero, das amizades, os beijos e abraços,
Na Vida, quero ser dono de meus próprios passos.
Quero de meu corpo instrumental
A irreverência inquieta sensual
De uma Fuga e Mistério de Piazzolla
Em desconcerto do jugo que me assola.
Quero, da solidão, o olhar aberto,
Viajar nas palavras, minhas e dos outros,
Fugindo à cobiça das vidas banais,
Aos ciosos aromas, sempre tão perto.
Quero mão cheia de Saramago,
Pitada de Calvino,
Colheres, rasas, de Kundera,
Nietzsche... proibido
Nem distante,
Nem louco,
Nem perdido.
Quero ser mão que embala as palavras de Vinícius,
Cântico Negro de Régio, um Choro de Bandolim,
Quero a irreverência de Almada,
A Harmonia de Bach,
Nas cordas de Paredes.
Quero a voz, sensual, melada,
De Elis, Bethânia e Ney,...
Quero ser, talvez, o que nunca serei...
Quero sentir o acre de maçã, o aroma de canela,
Quero ser Nocturno de Chopin, Libido de um Tango,
tudo isto pela manhã...
Quero, dentro do Coração, calor de caril...
Quero Água!,
Muita água! a fluir...
Quero sentir,
À minha janela,
Entrar o Vento de Abril,
Sentir que tudo, Tudo! valeu a pena,
Nem um Sorriso se perdeu,
Nem uma lágrima em vão,
Nem um cansaço sem razão!.
Só quero rir de mim, esquartejar as emoções,
Ensinar a meus filhos Diversidade, Tolerância, Liberdade
Ensinar com a Praxis da Escuta e das Sensações.
Phalésia
Nota: Phalésia é um poeta de mão cheia, de uma sensibilidade ímpar, cuja obra deve ser lida sempre e sempre. Para ler mais textos de sua autoria, basta clicar aí ao lado no link dos Novos Autores, vale a pena.
Uma aresta
arrepios...
a um de fundo
pernas
e
abraços
Ravel...
dois corpos
tintos
em
esmaecidas
carícias
Andréa Motta
10/04/04
Se ao teu nome eu uni meu nome,
ao teu destino, eu atrelei o meu,
a ti eu dei os meus mais ricos sonhos
e me aqueci na luz dos olhos teus...
Se no teu corpo eu encontrei meu ninho,
nos lábios teus, pude provar do vinho
mais puro e doce e quis me embriagar...
Se em teu abraço encontrei conforto,
do teu regaço eu fiz o último porto
e os meus veleiros pude ancorar...
Se em tua boca, alimento novo,
pude comer e alimentar minh’alma
e em teu olhar eu refleti a calma
que não sabia mais onde encontrar...
Se no teu colo eu tive proteção,
se tive eco no teu coração,
como esquecer, amor,
de te lembrar?
lisieux
Na escuridão noturna
meu verso se perde
como corredeiras selvagens
meio a mata virgem
Cansada
risco as palavras impertinentes
que fervilham impacientes
numa quase doentia
teimosia
Inquieta
feito brisa
abraçando o mar
encontro no teu poema
a inspiração
que ilumina meu lago escuro
Adormeço o pensamento
para não me diluir no tempo
mostro a outra face
que brada forte
a procura de ar rarefeito
onde a ausência
não asfixia o silêncio
de meus ecos.
Andréa Motta
Rio in Abril
Favelas
branco..sob fogo cerrado
o Rio vela seus mortos
estória velha
branco........& vera.Ricardo Mainieri
Abril Vermelho
O Rio chora
seus mortos
Ministros e Traficantes
com a mesma velha retórica
e cinismo cerrado
disputam
O PoderAndréa Motta
a
poe
sia pa
riu o po
eta que pa
riu o poema q
ue parou na te
la dum
computador
Abstraio de mim mesma a Criatura,
agora sou incorpórea
Sou conduzida por toques imaginários
cujas réstias de claridade estampam na pupila dos olhos
cores candentes, rosa rubra.
Em extâse me absorvo nos meandros simbólicos do tempo
onde um passarinho me segreda desejos
e a voz do vento ecoa silencioso
como brisa fugidia a me guiar
por dentro da luminosidade dos sentidos.
Sob o sol do entardecer
me imagino como um navio na linha do horizonte
me rendo ao olhar da paisagem
abafo meus sons enlevando-me no instante.
Andréa Motta

Confesso o inconfessável
no desenho da fumaça
o pensamento voa alto para te alcançar
Confesso
sinto falta dos enigmas
do sorriso verde dos teus olhos
Não nego
o arrepio dos sentidos
quando respiro a íris do teu ser
Confesso o inconfessável
tenho saudade do bailado dos teus versos
da inconstância dos teus sentidos
Não nego
a lembrança nostalgica do perfume suave da tua pele
no contato imaginário das canetas
Confesso o inconfessável
ao olhar as nuvens dar espaço ao azul celeste
vejo o contorno das tuas letras possuindo as minhas
em um manso frenesi
Não nego
Confesso o inconfessável
caramujo alcança a costa
sai do casulo
lança âncora e aporta.
Andréa Motta
Um som ensurdecedor de disparos rompe o silêncio da noite
Nada se move por instantes.
Como se o tempo houvesse estagnado.
As pessoas permanecem passivas
aos gritos de dor.
Apenas um cão ladra
O tempo passa
se transpõe
As pessoas voltam ao caminhar apressado
olhando apenas a si próprias
encapotadas,
não vêem o sangue escorrendo no peito.
Sequer vêem as flores dos jardins secretos da vida.
Apenas um cão ladra
ladra, corre em circulos
como se pedisse socorro
É inútil
as flores feneceram.
Apenas o cão continua a ladrar.
Andréa Motta
Maio/2003
Bagdá
Bagdá
O que foi feito do teu resplendor
onde jaz a magia de teus jardins encantados
Fostes o centro do mundo
teu legado
Mil e Uma Noites
de erotismo e paixão
Bagdá
Bagdá
De tantas lendas
fascínio de escritores
o que fizeram de ti
Os acordes dos violinos de instrumental refinado
esfumaram-se com o tempo
Bagdá
Bagdá
O vento calou o gongo
empoeirou a lâmpada mágica
soterrou Sheerazad
Bagdá
Bagdá
Te ofuscaram nesta luta
sem semblantes
onde o dia azul pintado de vermelho
foi rasgado por estilhaços
corpos dilacerados
nada sensuais
Bagdá
Bagdá
Teus triunfos
Sonhos
e canções
foram manchados em nome da libertação
Não cabem mais rimas nem versos
repousando nas tuas noites
Bagdá
Bagdá
Das fábulas pouco restou
virou fumaça encobrindo o sol
Teus Jardins transcendentais
ostentam em terreno minado
marcas profundas
barbárie
escombros.
Andréa Motta
Ao primeiro feixe de luz
em canto uníssono
celebram, os bem-te-vis
o despontar no horizonte
de mais um dia
Em vôos rasantes
de amarelo colorem
os pinheiros e jacarandás
da minha rua
Junto a outros pássaros
invadem galhos e espaços
se confundem as plumagens
os silvos se sobressaem
Indiferentes à rigidez do concreto
à poluição do ar
ao ruído dos veículos
contumazes gorgeiam
se espraiam entre o índigo
celestial e os homens
Inexpugnáveis
Serelepes
festejam na avenida
todos os dias a vida
Ave! Bem-te-vi
Vos retribuo em versos
de metria incerta
a calmaria da cotidiana
melodia
Vos saúdo com o mesmo trinar
Bem te vi, bem-te-vi!
Andréa Motta
Sem medos
abraça-me a alma arrepiada
solta os meus cabelos e toca-me
intensamente
intimamente
Deixa esta onda de calor percorrer-te a pele
não permitas que este momento de sublimação
se perca no tempo
Olha-me a alma por dentro das minhas entranhas
enxerga o invisível dos meus olhos
sente o meu corpo e ouve esta música
Deixa-te desvendar a cada toque sentido
desagua no meu prazer
Faze-me acreditar que o céu me sorri
Deita-te em chamas entre as minhas mãos
deixa-me explodir num orgasmo sagrado
de onde brotem lágrimas de felicidade
Andréa Motta
Na infinita essência d'esta corte,
de dúbia realeza
d'onde um rei com muitos vassalos
partem e repartem o pão
na presença dum garoto
sem teto
sem nome,
pele e osso
Estômago colado a garganta.
Condenado a morte precoce,
sem crimes ter praticado,
o maltrapilho
pés descalços
revira o lixo
apanha as migalhas.
Enquanto os senhores de pompas
e inverdades,
cobertos d'oiro e vaidades
falseam em favor
da fome zero.
Divertem-se em festas
de controversas histórias
articulam
conquistam
mil medalhões de ficta prata.
Alheia aos jornais que anunciam,
dia após dia,
sinopse da partição do milhão.
A corte vai passando,
sem embaraços
satisfazendo sonhos de consumo
lambuzando
os dedos
os beiços
com manjares dos Deuses.
O garoto de mãos atadas
nem sabe o que lhe contem
além de ao mundo pertencer
Desarmado
alia-se a vida
dela não faz ficção
a passos seguros,
sem aplausos,
vai passando
superando....
... a ausência do pão.
Andréa Motta
13/08/03
É janeiro, verão, época em que o sol brilha com intensidade e o céu adquire a tonalidade sorridente de um azul leve. Hoje, no entanto o dia acordou um pouco diferente, não menos belo, mas diferente. O céu tem aquela tonalidade profunda do azul invernal dando a impressão de um quadro pincelado a óleo, onde árvores, edifícios, tudo enfim, é engolido e só resta o azul, meio a uma descomunal sinfonia de pássaros gorjeando.
O cenário me faz lembrar, por alguns segundos, de um tempo distante escondido num canto qualquer da memória; uma passagem por um campo de concentração hoje coberto por girassóis, como se fosse possível o amarelo escamotear a dor daquela terra putrefeita. Esta visão é consumida pelo veloz vai e vem de carros na avenida e o cenário invadido pelo cheiro de borracha queimada que exala do asfalto. Mas ainda assim, na tela natural sobressai-se a profundidade do azul.
Nem mesmo o caminhar apressado das pessoas altera o panorama... nem poderia. Elas sequer dão conta das flores que germinam nos canteiros centrais; como poderiam perceber os mistérios do azul? Não vêem nada, não sentem nada além da cor de seus próprios umbigos.Como perceberiam, na magnitude do azul, crianças de olhar faminto sentadas na sarjeta a espera de um pedaço de pão, de um afago...
Aos poucos o azul ganha a tonalidade superficial do verão e a introspecção humana invade a tela.
Andréa Motta
Emoções a saldo
na contra-mão
duvidosas convicções
Sujeitos espreitam
pelas esquinas
o desfilar de angústias
dores e paixões
Andréa Motta
Alimento-me de poesia
desta arraigada nos subterrâneos
do meu templo profanado
desta intrigante agitação do pensamento
Alimento-me da poesia
parida em fragmentos
que pigmenta cálidas palavras
soltas numa folha de papel
Alimento-me de poesia
desta que jorra como semém
e transborda por minhas veias
gotejando feito seiva
Alimento-me da poesia
desta que brota do espírito
e revela a alma
Andréa Motta
Vigor
cinese
Corredeiras
véu de lágrimas
na densa vegetação
Trilhas
desvendam-lhe ao mundo
êxtase na Garganta do Diabo
Deusa
de águas límpidas
precipita-se por rochas
verde marron vulcão
Paz imensidão
brotando do solo
na terra da Cataratas
Guerreira
de vida e morte
por suas fendas sensuais
verte prazer esfumejante
Feiticeira
suas margens canteiros
de majestosos angicos
habitados por borboletas
multi-cores
Oh Cataratas do Iguaçu
Cabocla
Sua mata no alarido
das gralhas azuis saltitantes
entoa
mágicos cânticos e
arrebata suspiros
Bailarina
A dança encantada das suas águas
todos os dias modificada
pela coreografia do vento
não esconde aos seus pés
a palmeira enraizada pela paixão
Aquarela
nas entranhas da minha terra
és bela
mágica figura
desenhada na água
Andréa Motta
Descubro
um labirinto
de cercas vivas
Mais ao fundo
nódoas
e o silêncio
conspirando
entre as falanges
Sangro
Andréa Motta
01.04.04
Tento juntar os pedaços do meu mapa
Re tento
nada se encaixa
soa-me a detentos
Não tenho discernimento
faço de conta
uso cola arábica
não resulta.
Tento e Re tento
Entender pré julgamentos,
sigo o tracejado do meu mapa
escorrego pelos espaços
só para encontrar motivos
às lágrimas disfarçadas.
Não reajo,
me fotografo
em preto e branco,
deixo o retrato na montra
onde possa a oitava lua
pratea-lo.
Assim, quem sabe,
Eu passageira deste tempo perdido
vá de carona em seu rastro
absolvida dos delitos que não cometi
e, finalmente consiga colar os cacos
do meu mapa.
Andréa Motta
08/08/03
Ouço o desassossego do vento
retraio os sentidos no compasso do pensamento
Passo a passo agitam-se as palavras engolidas
é detestável esta mania de segurar no seio dos
olhos a agonia.
Cuspo fogo rebelde no papiro da minha alma
e mergulho nas ondas das minhas verdades
abstratas
Andréa Motta
23/12/03
Generais invadem as ruas
da minha infância
num único golpe. (Ricardo Mainieri)
AI...
pancadaria
grilhões
e muita agônia (Andréa Motta)Num único golpe
uma prévia:
censura. (Jeanete Ruaro)
Em golpes de tortura
Infindáveis
Cadáveres de ditadura (Teresinha F Tavares)
Nota : O Golpe de primeiro de abril .
Quem veio depois (como nós) aprendeu sobre a Revolução de 31/03/64... Quem estava aqui antes e não foi vítima da propaganda do governo militar sabe:
O GOLPE MILITAR OCORREU DE FATO EM PRIMEIRO DE ABRIL DE 1964,
mas seria muito ruim para um Governo Militar ser associado ao dia da mentira. Assim, atribuiu-se ao deslocamento dos militares de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro (ocorrido naquela madrugada) como sendo o início da "REVOLUÇÃO".
A mentira é dupla, porque jamais foi uma revolução, e nunca foi democrática. Seria certo que se "comemorasse" mesmo na data de 01 de Abril uma mentira que durou mais de 20 anos!
(Reinaldo Luciano)