abril 30, 2004

Presente de Grego

Salario-alacran11_1.GIF

Antes sua voz
   era eloqüente,
              Bradava
                    revoltas
                      e anseios

seus punhos cerrados,
        sempre audaciosos
        onde tudo era sonho,
                        desconheciam,
                        os efeitos do poder.

Hoje,
     articula dali,
     articula daqui...
                 e ao povo,
     o mínimo do mínimo
                       salário de fome
                                      e, PT saudações...

PT saudações?
      Sim, mas ao malogro
                      e à mediocridade!


Andréa Motta
30/04/04

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abril 29, 2004

O Retorno

revoada.JPG

Quando desaparecerem todos os fantasmas
que assombram o lago azul dos pirineus
vozes em côro, tomadas pela emoção,
entoarão uma suave melodia.

Será o fim da dualidade que dilacera
a profundez dos sentidos.
Neste momento ímpar, as montanhas
cobertas pela neve se abrirão em sorrisos plenos.

Num passe de mágica, a noite antes densa
será coberta por um fino véu rendado
e invadida por pássaros em revoada

Neste instante, anjos com suas harpas
indicarão as veredas, escondidas na cadeia
de montanhas, que conduzirão para casa.

Andréa Motta
17/12/03

Posted by jardimdepoesia at 04:56 PM | Comentários: (8)

abril 28, 2004

Ah.... a juventude...

envelhecer.jpg

  • Nota: Há alguns dias Maurício Requião, jovem e magnífico poeta baiano presenteou-me com esta bela poesia, o que muito me emocionou. A publicação dela, pelo autor, no site Os Novos Autores, desencadeou a publicação de outras belíssimas trovas, algumas feitas de improviso no próprio quadro de postagem, numa interação gostosa de ler, ver e participar. Publico abaixo a seqüência de Trovas ou Quadras e seus respectivos autores. Agradeço mais uma vez ao Maurício o presente, bem como, aos demais poetas e amigos esse momento de descontração,  Obrigada. (Andréa Motta)

 

Mesmo estando ainda nela

Muitas vezes sou surpreso

É uma fase muito bela

Mas é bom saber o peso.

 

Maurício Requião (for me)


O peso da juventude

só o tempo nos dirá.

Mas, antes que o tempo mude,

é melhor aproveitar.

 

Paulo Camelo


 

Juventude é coisa boa

anos-dourados de luz

mas ela se acaba à toa

nos deixa o peso da cruz...

-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.

 

Os anos da juventude

são plenos de amor e paz...

e hoje eu penso, amiúde

que eles não voltam jamais...

.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.

 

Ser jovem é ser apressado

viver a vida, veloz!

Ser velho é olhar o passado

e ver quanto estamos sós...

 

lisieux


Só se fala em juventude,

juventude é muito bom

inda lembro em plenitude

dos sabores de batom

.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.

O corpo do jovem ferve

com a ânsia de aventura

e eu aqui com minha verve

relembrando com fissura.

 

Michel Baruki


 

Juventude é desafio

e atitude sem pensar...

Atira-se em qualquer rio;

depois aprende a nadar!

 

Reinaldo N. Luciano

Posted by jardimdepoesia at 03:46 PM | Comentários: (10)

Minha Canção

barco_BenLomond1.JPG

  • imagem de Ben Lomond (retirada da Web)

Nos olhos um intenso desalento
nas mãos gestos vagos
na alma a melodia amena de um piano
Minha canção me conduz a versos
de rimas tristes e incertas

Invadida pelas notas musicais,
como barco a deriva ao sabor do vento brando,
assobio baixinho imitando o trinar de um pássaro

Sou mera espectadora
no burburinho da platéia
Vozes anônimas de calor fugaz
consagram o cálice desafinado

O piano com arfar cadenciado
soleva os acordes em sublime simetria
entre a música e a saudade

Epopéico num só movimento
o som se expande
no vale azul da percepção
purificando-a

Sensível ao vinho proibido
sem perder a musicalidade,
como viração acariciando o rosto
resiste a fluidez das palavras.

Andréa Motta
03/09/03

Posted by jardimdepoesia at 12:30 AM | Comentários: (8)

abril 27, 2004

Sobrevivência

sombras2.JPG

Na penumbra da cidade
brilho de lantejoulas
seios desnudos
lábios pintados de carmim
no corpo lanhado
tatuadas as marcas do desamor

Escoriações
hematomas
carne rasgada
alma amargurada

Nos desvios do tempo
violência doméstica
violência urbana
Nas esquinas um olhar
de menina amendrontada
sem lágrimas nem sorrisos
apenas o jogo da sobrevivência

Sombras escamoteiam
   o medo
no desenho da calçada

Rostos anônimos
gigolôs, prostitutas
sofismam pelos cruzamentos
escandalizando crentes
loucas sombras funambulescas
na solitude noturna
conspiram versos desencantados
num pacto com o diabo

Mas o tempo leva sem remorsos
o silêncio da noite
as mãos vazias
a dança do neon

na cauda do vento
por um instante sonhos adormecidos
insinuam-se nos olhares castigados
   ameigando-os

Não importa
onde pouse o olhar
não importa
a identidade
nem o coração partido
Não importa
a desventura
nem as portas fechadas
cada qual segue o seu destino.

Andréa Motta
02/10/03

Posted by jardimdepoesia at 12:54 AM | Comentários: (16)

abril 26, 2004

Basta

sonhodeliberdade1.jpg

 Não quero deslizar por arroios
de sonhos e alquimias
basta deste silenciar de letras opacas
deste voar descompassado
sem brilho
sem par
ou abrigo

Não quero ouvir as horas
nem passa-las em movimentos controlados
basta desta inatividade
em vidraças elegantes
quando intimamente só há revolta

Basta desta doação desmedida
desta entrega incólume
Chega de desejos contidos
desta sofreguidão valorizada

Chega!
Chega desta guerra de braços vazios
e palavras mutiladas
Desta conduta dissociada
flagrante desventura simulada

Atitudes
urgem atitudes
sem perplexidades
apenas verdades
alheia a conceitos
ou idades

Andréa Motta
14/10/03

Posted by jardimdepoesia at 12:04 AM | Comentários: (9)

abril 24, 2004

Um Poetrix quatro visões...

Breve Partida

olho1_2.JPG

Saudade densa

             s

             a

             l

             t

             a

             n

             d

             o

da menina dos olhos.

 

 Ricardo Mainieri

 

 

Saudade espessa

             r

             a

             s

             g

             a

             n

             d

             o

a pupila da alma.

 

 Andréa Motta

 

 

Saudade adaga

             a

             b

             r

             i

             n

             d

             o

o véu das córneas.

 

    lisieux

Saudade amarga
             s
             a
             l
             g
             a
             n
             d
             o
o céu da alma.

Jeanete Ruaro

 

Posted by jardimdepoesia at 12:47 AM | Comentários: (21)

abril 23, 2004

O avesso do espelho

gato.jpg

Peixe no aquário
gato a espreita
passarinho cai do ninho
gato na espreita
ursinho de pelúcia na gaveta
pele de pessêgo
pêlo em riste
flor de liz dependurada pela raiz

No avesso do espelho
a lua despida sorri
ao gato a espreita
do jantar

Andréa Motta

Posted by jardimdepoesia at 03:22 PM | Comentários: (9)

Canção de amor II

008a1.JPG

Ó pura exaltação do meu viver*
canção de amor que brota das entranhas
que fala de passagens tão estranhas
que aviva as emoções do meu querer

canção de amor, perfeita, inenarrável
que sai da minha alma e que se espalha
de notas quentes, queima igual fornalha,
com uma melodia incomparável.

Canção de amor, qual pedra cristalina
foco de luz, guardado na retina
que exalta a tua imagem tão querida

Canção que mostra o amor que te dedico
que faz-me ser feliz, fecundo e rico
canção de amor que embala a minha vida.

* verso de Paulo Camelo

lisieux
BH – 23.04.04
03h06m

Nota: Poesia inspirada no soneto Canção de Amor de Paulo Camelo (ver abaixo)

Posted by jardimdepoesia at 03:04 PM | Comentários: (3)

Protesto

  • ("nada se cria, tudo se transforma" -  Lavoisier)

burrito.jpg

  • Imagem de Sophie Degen  

É moda
       nada se cria,
                tudo se transforma.

Clonam-se seres irracionais,
      bem como, os racionais
Clonam-se idéias
                        e ideais

Mas, é moda,
                   e daí
se alguém levar
                   vantagem...
Tudo  passa mesmo
                   a ser igual
                      neste mundo tão
                                       desigual

Onde nada se cria,
                  tudo se transforma
                          como se a vida fosse
                                    mera
                                        aparência

Ou um panfleto, descartável
                          ou quem sabe...
                           uma progressão aritmética
                            onde se calcula
                                     o preço da corrida...

Tenho pena,
          mas é moda
                  um vale tudo
                               desenfreado

E...
As minhas inquietações
                que se explodam...
                  importa mesmo é reproduzir
                                     em qualquer escala

Afinal,
        na
          natureza
            nada se cria,
                tudo se transforma.


Andréa Motta
21/04/04.

Posted by jardimdepoesia at 02:29 AM | Comentários: (10)

Canção de amor

2_1.JPG

Canção de amor, suave, terna, pura,
que sai da minha boca aos borbotões,
canção de paz, rainha das canções,
és fonte de beleza e formosura.

Divina forma de exaltar o amor,
imenso amor que brota da minh'alma,
suave melodia que me acalma,
és bela, forte, plena de fervor.

Se sais da alma pura e cristalina,
em tons e semitons tu tomas forma
e mostras a harmonia do teu ser;

ao mundo te apresentas simples, bela,
e, cristalina, te manténs perfeita,
ó pura exaltação do meu viver!

Paulo Camelo

Nota: Paulo Camelo é um poeta de mão cheia, sonetista de impar sensibilidade. Com diversos livros publicados no Brasil. Para conhecer outras obras do autor basta acessar o site da Magriça , a Notívaga  e Jardim de Poesia (no geocities)

Posted by jardimdepoesia at 01:31 AM | Comentários: (3)

abril 21, 2004

É p'ra ti que escrevo

(Porque tu deixas em mim tanto de ti - Pedro Abrunhosa)

folhas1.JPG

É p'ra ti que escrevo, nesta manhã chuvosa
porque tu deixas em mim tanto de ti
me fazes sentir tua alma no balanço das folhas,
no vôo irriquieto das andorinhas

É p'ra ti que escrevo, no reflexo do espelho
pois é na inversão da imagem que teus dedos sorriem
porque tu deixas em mim tanto de ti
no silêncio das madrugadas.

Porque tu deixas em mim tanto de ti,
é p'ra ti que escrevo, por acreditar que além da mente
o corpo também voa, e cada passo deixa de ser
um sonho cruel no rastro de teus segredos.

Porque tu deixas em mim tanto de ti,
é p'ra ti que escrevo, para te dizer que aprendi
com este misto de saudade e ansiedade impregnada
na ausente presença delineada na janela embaçada.

É p'ra ti que escrevo, na fechadura do instante,
porque tu deixas em mim tanto de ti
na tua voz rebelde de poeta, no desejo apertado
de abraçar o vento e ancorar tua nau inquieta.

Porque tu deixas em mim tanto de ti, é p'ra ti que escrevo
para que saibas que no leito das tuas palavras
eu me deito e encontro sossego, seco meu pranto
e adormeço na saliva que do teu peito brota.

É p'ra ti que escrevo
para desvendar tua teia sagrada
para entender por que tu deixas em mim tanto de ti
porque teces a luz da manhã e preenches meu olhar vazio.

Andréa Motta

Posted by jardimdepoesia at 04:54 AM | Comentários: (10)

Mutação

kiss_J.gif 

Como notas musicais,
ouço os profundos acordes
que tua ausência executa
na essência do meu ser.

Conservo a música
da mesma forma,
que ainda sinto teus sentidos,
tua pele arrepiada,
o teu toque imaginário...
E, tua respiração ofegante.

Como sonata,
ainda trago em meus olhos,
teus lábios ávidos
em busca dos meus,
a tua lingua....
E, teus olhos cheios de brilho
apesar do cansaço.
 
Esta insensatez
de sentir sem entender...
a metamorfose da água em vinho,
este mundo tão novo em meu peito,
faz-me confusa,
Inconclusa.

Esta tua presença amiúde,
tão cálida,
tão forte mesmo que ausente
de tão melodiosamente silenciosa,
transporta,
transmuta...
 
Sonhos em saudades....

Andréa Motta
Junho/2003

Posted by jardimdepoesia at 12:52 AM | Comentários: (6)

abril 20, 2004

Explosão

explosao1.JPG

Odeio hipocrisia
           inverdade
           boca pequena
           imaturidade
           fantasia
                rendada

Odeio o pequeno príncipe
           saia rodada
           boca pintada
               carnaval
           e a virgem maria

Quero meu corpo molhado
           lingua devorada
           chocolate derretido
           camisa desabotoada


Quero
     explosão
      desgoverno
         linha infinita
          desafio

Não quero
        competição
         apocalipse
           cereja
              nem
                 amizade
                    enlatada

Quero
       o feitiço
          dum
             chamego
           e
             pêssego
                açucarado

Prefiro o doce amarrado
                     à falsa afinidade

Andréa Motta
17/04/04

Posted by jardimdepoesia at 01:39 AM | Comentários: (14)

abril 19, 2004

Menestrel da Solidão

nudes_in_nature___glen_r_johnson.jpg

  • Nudes in nature (imagem de Glen r. Johnson)

Sigo em peregrinação as batidas do tempo
atrás ficam pálidos inimigos
ocultos em fragrâncias exóticas

Na face marcada
risos e lágrimas
causa e efeito
de sonhos desfeitos

Sem medo, como menestrel
deixo vibrar o coração
nas cordas da solidão.

Andréa Motta
09/09/03

Posted by jardimdepoesia at 01:15 PM | Comentários: (8)

abril 18, 2004

Ecos

caneta.jpg

Talvez eu pudesse escrever lindas rimas
da mais pura poesia.
Todavia a singeleza da poesia
em nada serviria se não retratasse
os ecos da minha alma.

Na minha alma,
a caneta não encontra palavras macias...
procura...procura
só encontra ecos da minha falsa euforia.

São ecos fortes e agudos
a repetir sem parar
não cale.. brade,
grite o mais alto que puder,
esperneie
mas não pemita que sufoquem a ternura
que há em ti.
 
A caneta permanece estática
os ecos cessam
minha voz emudece

As lágrimas são a única resposta.

Andréa Motta
maio/03

Posted by jardimdepoesia at 11:54 PM | Comentários: (3)

Resposta ao tempo

mulherespelho.jpg

Silhuetas delineadas a pó de arroz
rasgam o oculto do espelho
não tenho voz
apenas o vento esvoeja no tempo
cerrado pelas minhas mãos vazias.

Nas profundezas do silêncio
o reflexo duma floresta de algas
                                    avermelhadas
D'onde emergem sorrateiras verdades
O mar não aniquila nem suga, sustenta.

Não tenho voz, tenho uma força que impele
endorfina da palavra viandante que não disfarça,
oscila, é verdade, feito areia solta pela brisa
assinalada pelas horas.

Não tenho voz, em resposta ao tempo
há uma força que impele e medra,
exorciza medos como ficção bordada
na safira dos olhos.

Andréa Motta
27/11/03

Posted by jardimdepoesia at 03:46 PM | Comentários: (1)

abril 17, 2004

Marcas

lagrimademulher.jpg

Tenho saudade da época
em que acreditava ser Cinderela
tinha nos olhos a luz do amor
nos lábios um sorriso sereno
no rosto aquele ar alegre
de quem acredita nos sonhos
e os persegue;
no peito carregava a certeza
de que meus braços
o mundo  abraçavam

Hoje,
Trago nos olhos
              lágrimas
no rosto
              o peso dos anos
e o coração
               em retalhos

Andréa Motta
09/09/03

Posted by jardimdepoesia at 09:12 PM | Comentários: (5)

Rostos sem nome

h-dacosta-f2_1.JPG

  • Imagem de Da Costa (retirada da web)

Se a terra é tão azul
e seu chão tão vermelho,
por quê tantos rostos sem nome?
por quê no trajeto de tantos sonhos sem regras,
o Homem...
Se perde em tanto desamor?

Se os rios correm para o mar
e suas águas são tão cristalinas,
por quê o Homem corre contra o tempo?

Se os desfiladeiros têem fendas
e suas rochas são atalhos de cândido marrom,
por quê os Homens clamam tanto por Justiça
quando matam sem pudor?

Se as florestas são tão verdes
e seus frutos alimentam,
por quê os Homens furtam para cevar
a fome ?

Se música e a poesia encantam e
embalam os sonhos,
por quê os Homens não as deixam fluir
como sinfonia tatuada e fomentam a paz?

Se o mundo fosse perfeito e todos vivessem
dos frutos que a terra nos dá...
sem guerras, sem mortes, sem rebeldias
como se fosse o éden
será que os Homens ainda conseguiriam sonhar?


Andréa Motta
junho/2003

Posted by jardimdepoesia at 02:39 AM | Comentários: (10)

abril 16, 2004

Cárcere

Arantza-Acorrentada1.JPG

Como ousa tentar me silenciar
quando em mim as palavras fluem
até mesmo sem que eu as perceba?

Como ousa tolher a minha voz
arrancar dos meus dedos
cada palavra parida?

Ate-me
(se te fizer feliz)
Jogue-me numa cela escura e suja
Nem assim me calará.

Não me condene
Não me amordace
Deixe-me exteriozar meu sentir.

Minhas palavras
(reflexos de mim mesma)
Serão sempre livres.

Andréa Motta
17/08/03

Posted by jardimdepoesia at 03:36 PM | Comentários: (10)

Quero

azul-martacarmona1.JPG

  • Imagem de Marta Carmona (retirada da Web)

Quero ser o Homem confiante,
Sem receio de suor nem pudor de pó.
Um Homem que sabe do Triste e do Belo,
Do Amor e do Ódio, mas um Homem Só.
Quero, das lutas, a energia da raiva, dos armistícios, a alegria,
Quero, das amizades, os beijos e abraços,
Na Vida, quero ser dono de meus próprios passos.

Quero de meu corpo instrumental
A irreverência inquieta sensual
De uma Fuga e Mistério de Piazzolla
Em desconcerto do jugo que me assola.

Quero, da solidão, o olhar aberto,
Viajar nas palavras, minhas e dos outros,
Fugindo à cobiça das vidas banais,
Aos ciosos aromas, sempre tão perto.

Quero mão cheia de Saramago,
Pitada de Calvino,
Colheres, rasas, de Kundera,
Nietzsche... proibido
Nem distante,
Nem louco,
Nem perdido.

Quero ser mão que embala as palavras de Vinícius,
Cântico Negro de Régio, um Choro de Bandolim,
Quero a irreverência de Almada,
A Harmonia de Bach,
Nas cordas de Paredes.
Quero a voz, sensual, melada,
De Elis, Bethânia e Ney,...
Quero ser, talvez, o que nunca serei...

Quero sentir o acre de maçã, o aroma de canela,
Quero ser Nocturno de Chopin, Libido de um Tango,
tudo isto pela manhã...
Quero, dentro do Coração, calor de caril...
Quero Água!,
Muita água! a fluir...

Quero sentir,
À minha janela,
Entrar o Vento de Abril,
Sentir que tudo, Tudo! valeu a pena,
Nem um Sorriso se perdeu,
Nem uma lágrima em vão,
Nem um cansaço sem razão!.

Só quero rir de mim, esquartejar as emoções,
Ensinar a meus filhos Diversidade, Tolerância, Liberdade
Ensinar com a Praxis da Escuta e das Sensações.

Phalésia

Nota: Phalésia é um poeta de mão cheia, de uma sensibilidade ímpar, cuja obra deve ser lida sempre e sempre. Para ler mais textos de sua autoria, basta clicar aí ao lado no link dos Novos Autores, vale a pena.

Posted by jardimdepoesia at 03:10 PM | Comentários: (2)

abril 15, 2004

Seguidilha

bolero-graphic.jpg

Uma aresta
          arrepios...
a um de fundo
          pernas
          e
          abraços

Ravel...
       dois corpos
                      tintos
                      em
                       esmaecidas
                       carícias

Andréa Motta
10/04/04

Posted by jardimdepoesia at 02:37 PM | Comentários: (9)

Questiúnculas

tatoo02_jpg.JPG

Se ao teu nome eu uni meu nome,
ao teu destino, eu atrelei o meu,
a ti eu dei os meus mais ricos sonhos
e me aqueci na luz dos olhos teus...
Se no teu corpo eu encontrei meu ninho,
nos lábios teus, pude provar do vinho
mais puro e doce e quis me embriagar...

Se em teu abraço encontrei conforto,
do teu regaço eu fiz o último porto
e os meus veleiros pude ancorar...
Se em tua boca, alimento novo,
pude comer e alimentar minh’alma
e em teu olhar eu refleti a calma
que não sabia mais onde encontrar...

Se no teu colo eu tive proteção,
se tive eco no teu coração,
como esquecer, amor,
de te lembrar?

lisieux

 

Posted by jardimdepoesia at 02:12 PM | Comentários: (3)

Na Senda dum Poema

1lugar1.JPG

Na escuridão noturna
meu verso se perde
como corredeiras selvagens
meio a mata virgem

Cansada
risco as palavras impertinentes
que fervilham impacientes
numa quase doentia
   teimosia

Inquieta
feito brisa
abraçando o mar
encontro no teu poema
a inspiração
que ilumina meu lago escuro

Adormeço o pensamento
para não me diluir no tempo
mostro a outra face
que brada forte
a procura de ar rarefeito
onde a ausência
não asfixia o silêncio
de meus ecos.

Andréa Motta

Posted by jardimdepoesia at 02:32 AM | Comentários: (4)

abril 14, 2004

Rio in abril & Abril vermelho

roci01.jpg

Rio in Abril

Favelas
branco..sob fogo cerrado
o Rio vela seus mortos
estória velha
branco........& vera.

Ricardo Mainieri


Abril Vermelho


O Rio chora
         seus mortos
Ministros e Traficantes
         com a mesma velha retórica
                               e cinismo cerrado
                                       disputam
                                                O Poder

Andréa Motta

Posted by jardimdepoesia at 04:06 AM | Comentários: (9)

Poesia

 

a

 

poe

 

sia pa

 

riu o po

 

eta que pa

 

riu o poema q

 

ue parou na te

 

la dum

 

computador

 

Posted by jardimdepoesia at 03:13 AM | Comentários: (7)

abril 13, 2004

Abstração

Meditacao-Celitomedeiros1.JPG

Abstraio de mim mesma a Criatura,
agora sou incorpórea
Sou conduzida  por toques imaginários
cujas réstias de claridade estampam na pupila dos olhos
cores candentes, rosa rubra.

Em extâse me absorvo nos meandros simbólicos do tempo
onde um passarinho me segreda desejos
e a voz do vento ecoa silencioso
como brisa fugidia a me guiar
por dentro da luminosidade dos sentidos.

Sob o sol do entardecer
me imagino como um navio na linha do horizonte
me rendo ao olhar da paisagem
abafo meus sons enlevando-me  no instante.

Andréa Motta

Posted by jardimdepoesia at 03:01 PM | Comentários: (5)

abril 12, 2004

Confissão

FUMACA.jpg

 Confesso o inconfessável
no desenho da fumaça
     o pensamento voa alto para te alcançar

Confesso
sinto falta dos enigmas
         do sorriso verde dos teus olhos

Não nego
o arrepio dos sentidos
        quando respiro a íris do teu ser

Confesso o inconfessável
tenho saudade do bailado dos teus versos
                       da inconstância dos teus sentidos

Não nego
a lembrança nostalgica do perfume suave da tua pele
                                   no contato imaginário das canetas

Confesso o inconfessável
ao olhar as nuvens dar espaço ao azul celeste
vejo o contorno das tuas letras possuindo as minhas
                                                             em um manso frenesi

Não nego
Confesso o inconfessável
                  caramujo alcança a costa
                                                 sai do casulo
                                                       lança âncora e aporta.

Andréa Motta

Posted by jardimdepoesia at 01:59 PM | Comentários: (6)

abril 06, 2004

Apenas um cão ladra

figura_multidao1.GIF

Um som ensurdecedor de disparos rompe o silêncio da noite
Nada se move por instantes.
Como se o tempo houvesse estagnado.
As pessoas permanecem passivas
aos gritos de dor.

Apenas um cão ladra

O tempo passa
se transpõe
As pessoas voltam ao caminhar apressado
olhando apenas a si próprias
encapotadas,
não vêem o sangue escorrendo no peito.
Sequer vêem as flores dos jardins secretos da vida.

Apenas um cão ladra

ladra, corre em circulos
como se pedisse socorro
É inútil
as flores feneceram.

Apenas o cão continua a ladrar.

Andréa Motta
Maio/2003

Posted by jardimdepoesia at 02:53 PM | Comentários: (8)

Bagdá

torre2.JPG

Bagdá
   Bagdá
O que foi feito do teu resplendor
onde jaz a magia de teus jardins encantados
Fostes o centro do mundo
teu legado
   Mil e Uma Noites
de erotismo e paixão

Bagdá
   Bagdá
De tantas lendas
fascínio de escritores
   o que fizeram de ti
Os acordes dos violinos de instrumental refinado
esfumaram-se com o tempo

Bagdá
   Bagdá
O vento calou o gongo
empoeirou a lâmpada mágica
soterrou Sheerazad

Bagdá
   Bagdá
Te ofuscaram nesta luta
   sem semblantes
onde o dia azul pintado de vermelho
foi rasgado por estilhaços
   corpos dilacerados
nada sensuais

Bagdá
   Bagdá
Teus triunfos
      Sonhos
         e canções
foram manchados em nome da libertação
Não cabem mais rimas nem versos
repousando nas tuas noites

Bagdá
   Bagdá
Das fábulas pouco restou
virou fumaça encobrindo o sol
Teus Jardins transcendentais
   ostentam em terreno minado
marcas profundas
   barbárie
      escombros.

Andréa Motta

Posted by jardimdepoesia at 03:50 AM | Comentários: (3)

Bem te vi, bem te vi...

bemtevi1.JPG

Ao primeiro feixe de luz
em canto uníssono
celebram, os bem-te-vis
o despontar no horizonte
de mais um dia

Em vôos rasantes
de amarelo colorem
os pinheiros e jacarandás
da minha rua

Junto a outros pássaros
invadem galhos e espaços
se confundem as plumagens
os silvos se sobressaem

Indiferentes à rigidez do concreto
à poluição do ar
ao ruído dos veículos
contumazes gorgeiam
se espraiam entre o índigo
celestial e os homens

Inexpugnáveis
Serelepes
festejam na avenida
todos os dias a vida

Ave! Bem-te-vi

Vos retribuo em versos
de metria incerta
a calmaria da cotidiana
melodia

Vos saúdo com o mesmo trinar
Bem te vi, bem-te-vi!

Andréa Motta

Posted by jardimdepoesia at 03:40 AM | Comentários: (2)

abril 05, 2004

Sublimação

AmentesFrenteAlSol.jpg

Sem medos
abraça-me a alma arrepiada
solta os meus cabelos e toca-me
intensamente
intimamente

Deixa esta onda de calor percorrer-te a pele
não permitas que este momento de sublimação
se perca no tempo

Olha-me a alma por dentro das minhas entranhas
enxerga o invisível dos meus olhos
sente o meu corpo e ouve esta música

Deixa-te desvendar a cada toque sentido
desagua no meu prazer
Faze-me acreditar que o céu me sorri

Deita-te em chamas entre as minhas mãos
deixa-me explodir num orgasmo sagrado
de onde brotem lágrimas de felicidade

Andréa Motta

Posted by jardimdepoesia at 03:50 AM | Comentários: (6)

abril 04, 2004

Fome Zero

favela1_1.JPG

Na infinita essência d'esta corte,
            de dúbia realeza
d'onde um rei com muitos vassalos
                      partem e repartem o pão
na presença dum garoto
                           sem teto
                            sem nome,
                               pele e osso
Estômago colado a garganta.

Condenado a morte precoce,
              sem crimes ter praticado,
o maltrapilho
   pés descalços
revira o lixo
              apanha as migalhas.

Enquanto os senhores de pompas
e inverdades,
                 cobertos d'oiro e vaidades
falseam em favor
                 da fome zero.
Divertem-se em festas
                 de controversas histórias
articulam
conquistam
                mil medalhões de ficta prata.

Alheia aos jornais que anunciam,
                              dia após dia,
sinopse da partição do milhão.
A corte vai passando,
                          sem embaraços
satisfazendo sonhos de consumo
lambuzando
              os dedos
                  os beiços
                    com manjares dos Deuses.

O garoto de mãos atadas
              nem sabe o que lhe contem
                          além de ao mundo pertencer
Desarmado
              alia-se a vida
              dela não faz ficção
a passos seguros,
              sem aplausos,
vai passando
              superando....
              ... a ausência do pão.

Andréa Motta
13/08/03

Posted by jardimdepoesia at 09:34 PM | Comentários: (7)

Azul

Vannveien3.JPG

É janeiro, verão, época em que o sol brilha com intensidade e o céu adquire a tonalidade sorridente de um azul leve. Hoje, no entanto o dia acordou um pouco diferente, não menos belo, mas diferente. O céu tem aquela tonalidade profunda do azul invernal dando a impressão de um quadro pincelado a óleo, onde árvores, edifícios, tudo enfim, é engolido e só resta o azul, meio a uma descomunal sinfonia de pássaros gorjeando.

 

O cenário me faz lembrar, por alguns segundos, de um tempo distante escondido num canto qualquer da memória; uma passagem por um campo de concentração hoje coberto por girassóis, como se fosse possível o amarelo escamotear a dor daquela terra putrefeita. Esta visão é consumida pelo veloz vai e vem de carros na avenida e o cenário invadido pelo cheiro de borracha queimada que exala do asfalto. Mas ainda assim, na tela natural sobressai-se a profundidade do azul.

 

Nem mesmo o caminhar apressado das pessoas altera o panorama... nem poderia. Elas sequer dão conta das flores que germinam nos canteiros centrais; como poderiam perceber os mistérios do azul? Não vêem nada, não sentem nada além da cor de seus próprios umbigos.Como perceberiam, na magnitude do azul, crianças de olhar faminto sentadas na sarjeta a espera de um pedaço de pão, de um afago...

 

Aos poucos o azul ganha a tonalidade superficial do verão e a introspecção  humana invade a tela.

 

Andréa Motta

 

Posted by jardimdepoesia at 03:29 AM | Comentários: (6)

abril 03, 2004

Esquinas

angustia1.JPG

Emoções a saldo
     na contra-mão
                     duvidosas convicções

Sujeitos espreitam
                pelas esquinas
o desfilar de angústias
                    dores e paixões

Andréa Motta

Posted by jardimdepoesia at 03:04 PM | Comentários: (3)

Seiva

a-seivada1.JPG

Alimento-me de poesia
desta arraigada nos subterrâneos
do meu templo profanado
desta intrigante agitação do pensamento

Alimento-me da poesia
parida em fragmentos
que pigmenta cálidas palavras
soltas numa folha de papel

Alimento-me de poesia
desta que jorra como semém
e transborda por minhas veias
gotejando feito seiva

Alimento-me da poesia
desta que brota do espírito
e revela a alma

Andréa Motta

Posted by jardimdepoesia at 01:33 AM | Comentários: (4)

abril 02, 2004

Exuberância

FozdoIguacu.jpg

Vigor
   cinese

Corredeiras
   véu de lágrimas
      na densa vegetação

Trilhas
   desvendam-lhe ao mundo
      êxtase na Garganta do Diabo

Deusa
   de águas límpidas
      precipita-se por rochas
         verde marron vulcão

                                  Paz imensidão
                            brotando do solo
               na terra da Cataratas

Guerreira
   de vida e morte
      por suas fendas sensuais
         verte prazer esfumejante

Feiticeira
   suas margens canteiros
      de majestosos angicos
         habitados por borboletas
            multi-cores

Oh Cataratas do Iguaçu

Cabocla
   Sua mata no alarido
      das gralhas azuis saltitantes
         entoa
           mágicos cânticos e
              arrebata suspiros

Bailarina
   A dança encantada das suas águas
      todos os dias modificada
         pela coreografia do vento
            não esconde aos seus pés
               a palmeira enraizada pela paixão

Aquarela
   nas entranhas da minha terra
      és bela
         mágica figura
            desenhada na água

Andréa Motta

Posted by jardimdepoesia at 01:20 PM | Comentários: (7)

Investigação científica

1_labirinto_sangue.jpg

Descubro
um labirinto
 de cercas vivas
     
Mais ao fundo
             nódoas
e o silêncio
    conspirando
             entre as falanges

Sangro

Andréa Motta
01.04.04

 

Posted by jardimdepoesia at 12:39 AM | Comentários: (1)

abril 01, 2004

Montra

Escultura_Pausa2.jpg

Tento juntar os pedaços do meu mapa
Re tento
nada se encaixa
soa-me a detentos
Não tenho discernimento
faço de conta
uso cola arábica
      não resulta.

Tento e Re tento

Entender pré julgamentos,
sigo o tracejado do meu mapa
escorrego pelos espaços
só para encontrar motivos
às lágrimas disfarçadas.

Não reajo,
me fotografo
     em preto e branco,
deixo o retrato na montra
onde possa a oitava lua
     pratea-lo.

Assim, quem sabe,
Eu passageira deste tempo perdido
vá de carona em seu rastro
absolvida dos delitos que não cometi
e, finalmente consiga colar os cacos
do meu mapa.

Andréa Motta
08/08/03

Posted by jardimdepoesia at 11:49 PM | Comentários: (1)

Retração

vento2-3.JPG

Ouço o desassossego do vento
retraio os sentidos no compasso do pensamento
Passo a passo agitam-se as palavras engolidas
é detestável esta mania de segurar no seio dos
olhos a agonia.

Cuspo fogo rebelde no papiro da minha alma
e mergulho nas ondas das minhas verdades
                                                           abstratas

Andréa Motta
23/12/03

 

Posted by jardimdepoesia at 01:04 PM | Comentários: (4)

31 de Março

Ditadu1.jpg

Generais invadem as ruas
da minha infância
num único golpe. (Ricardo Mainieri)

AI...
pancadaria
grilhões
e muita agônia (Andréa Motta)

Num único golpe
uma prévia:
censura. (Jeanete Ruaro)

Em golpes de tortura
Infindáveis
Cadáveres de ditadura (Teresinha F Tavares)

NotaO Golpe de primeiro de abril .

Quem veio depois (como nós) aprendeu sobre a Revolução de 31/03/64... Quem estava aqui antes e não foi vítima da propaganda do governo militar sabe:

O GOLPE MILITAR OCORREU DE FATO EM PRIMEIRO DE ABRIL DE 1964,

 mas seria muito ruim para um Governo Militar ser associado ao dia da mentira. Assim, atribuiu-se ao deslocamento dos militares de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro (ocorrido naquela madrugada) como sendo o início da "REVOLUÇÃO".

A mentira é dupla, porque jamais foi uma revolução, e nunca foi democrática. Seria certo que se "comemorasse" mesmo na data de 01 de Abril uma mentira que durou mais de 20 anos!

 (Reinaldo Luciano)

Posted by jardimdepoesia at 01:27 AM | Comentários: (1)