Sábado, 15 de Maio de 2004

Alma Mater

mae2.jpg


Eis-me, frente a novo desafio. Não me sinto capaz de ultrapassá-lo, mas não deixarei de tentar. Agradam-me os desafios. Estimula-me o ego a tentativa de ultrapassagem dos meus próprios limites. E tu sabe-lo, como também sabes o quanto este assunto tem mexido com os meus sentidos. Dá inclusive para invocar Camões - preciso rir antes – no seu famoso “amor é fogo que arde sem se ver / é a dor que desatina sem doer”. Todavia, neste caso, além de doer e arder, queima. E bem!


 


Que pretendes com isto, sacudir os meus brios? Ou… quem sabe tentar arrancar-me deste marasmo que infesta minhas entranhas? Seja lá o que for, aceitei o desafio. Agora é que são elas, sempre quero ver por onde começo a destrinchar este emaranhado de sentimentos. Não tenho idéia...


 


Talvez deva ir apenas tingindo o papel com as cores que de mim escorrem. Mas, pergunto-me se estou preparada para ler o que vai nascer daqui? Ler… – rio uma vez mais - na verdade não tenho certeza se estou preparada para deixar em branco este vácuo que habita entre eu e eu mesma!


 


Antes, porém, peço-te: vem comigo ao fundo deste poço de enxofre, talvez precise de guelras para respirar no final. Não que eu pretenda o teu oxigênio; sabes bem que não se trata disso. Apenas não me apetece viajar só neste momento.


 


Dogmas, são tantos… Os conceitos... E vamos deixando que o mundo nos leve. Assim mesmo. Os conceitos são incutidos à força ou sub-repticiamente; mas lá que entram pela pele adentro, ah isso… E ainda vêm com estórias, a afirmar que o mundo não gira em torno do nosso umbigo, quando não querem eles outra coisa.


 


Primeiro, somos abençoadas com a dádiva da maternidade, poético estado que inspira meiguice, não é mesmo? Pois sim! Muita, muita meiguice. Ainda mal balbuciamos as primeiras sílabas e zás; já estamos a ouvir “que gracinha hummm dará uma bela moça e que lindos serão os seus filhos!..”. Crescemos a ouvir isto, quando não de dentro da família, através de todos os demais aparelhos ideológicos de formação do correto caracter e personalidade.


 


E, por mais livres de pressões que achemos viver, não é possível negar que acabamos sempre nos deixando correr como um rio manso. Ou seja, navegamos como os outros já navegaram, isto é indiscutível. É um circulo vicioso, interminável. Parece a oroboro que eternamente gira com a boca enfiada na cauda.


 


Acredito que na verdade tudo, todos, são produtos do mesmo molde: Vera nasceu para ser mãe; Paula também; Josefa...todas! E antes delas as suas mães, avós, etc, etc. Todas felizes parideiras, a alimentar o mundo de mãos para trabalhar e vaginas para dar mais mãos para trabalhar.


Eu, como não poderia deixar de ser, com toda a independência e liberdade que julgava ter, não deixei de subir a mesma vereda. Talvez seja melhor, a bem da clareza, esclarecer que não nego a beleza e a doçura da maternidade: sou mãe e amo o meu filho.


 


Porém, será ser mãe a estonteante maravilha que é apregoada e evangelizada pela sociedade? Ser mãe será mesmo um doce padecimento num paraíso? O gozo que estas coisas me dão…


 


Antes de ser mãe, sou uma pessoa. E enquanto tal tenho desejos, preciso de ar. E há momentos em que estes desejos fazem um imenso estardalhaço. Indago-me até onde será justo para comigo mesma esta repressão?


 


Ora, não me venhas dizer que não é repressão, porque é! É papo furado esta conversa de lá porque sou mãe - eu ou qualquer outra - tenho de me recusar a mim mesma. Sou egoísta, sim! É natural do ser humano ser. E não vem daí mal nenhum ao mundo.


 


Fujo ao tema? Talvez tenha razão, talvez não. De qualquer sorte não é fácil jogar para fora este amontoado de contradições, acredita-me.


 


As palavras vão escapando aos turbilhões, como uma vaga selvagem batendo forte numa rocha. Sou a vaga e a rocha. Daí a dificuldade: ao mesmo tempo em que bato  recuo, permaneço estática. E é este estar estática que me incomoda, que provavelmente incomoda também muitas outras pessoas.


 


Amo meu filho. E, ao mesmo tempo, odeio ser mãe em alguns momentos. Contraditório, dirão alguns. Todavia, nem tanto.


 


Sei que me percebes, sinto-o.


 


Nunca aprendi a ser mãe. Muitos dirão não se aprende a ser mãe. Ora, respondo eu: aprende-se sim. Algumas são educadas para isso, outras não. Eu não fui! Mas sonhei em ser como qualquer mocinha, não obstante não fosse já nenhuma garota quando dei à luz.


 


E porque sonhei? Só consigo encontrar uma resposta: porque tudo a minha volta - não só à minha,  obviamente - é preparado para tal, mesmo que inconscientemente.


 


Pois bem, sou mãe. Terei por isso de abdicar de mim mesma? Não, não e não! Isto consome-me, retira-me o ar. Mas abdico…


 


Odeio isto! Compreendes porque digo que é odioso ser mãe em determinados momentos? Também, se não entenderes não fará qualquer diferença...


 


Sou mãe. Que bonitinho. Limpar merda de criança! Arghhhh! Causa-me asco, quase vomito. Ah, sou mãe.. Abro mão de meus sonhos, abro mão de mim mesma e vou vivendo envolta por dúzias e dúzias de fraldas, passando noites e mais noites acordada, esquecida de mim!


 


Grande piada… grande mentira.. Tenho obrigatoriamente de amamentar, e lá vem a culpa por não o fazer. Preciso educar, preciso preciso preciso! Então largo o meu filho numa creche qualquer, trabalho “36 horas” por dia - mais culpa - e mimos exagerados como retribuição do exílio que impus.


 


Chega enfim, lá longe, um dia em que os filhos crescem e lá se vão. Afinal criamo-los para o mundo, não é mesmo? Outra mentira… ou a continuação da mesma.


 


E nós a afundarmo-nos cada vez mais.. Enxofre, enxofre. Quem é efetivamente exilado? Eu! Eu: mãe. Eu!


 


O quê? Ao me leres pensas “é louca oca vazia”? Ledo engano.


 


As emoções fervilham. E eu continuo inerte: sou mãe, afinal. Mãe mulher… mulher.. com desejos...


 


 


Enquanto meu filho cresce mal tenho tempo para satisfazer o corpo e a alma com os prazeres necessários. Quantas, quantas foram às noites em que carente olhei aquele corpo no qual se encerra a minha prisão, no aflorar da masculinidade, jovem, tenro, suave, pedindo carícias... e as minhas entranhas, lançando as garras, latejando de vontade de o possuir, de ser possuída por ele.


 


Como pude sentir tal coisa, perguntarás? Sentindo. Apenas sentindo tudo o que a privação do alimento mundano, carnal, fazia crescer em mim. A sede da boca do corpo grita mais alto que tudo, que tudo.


 


Mas novamente o meu Eu mulher foi reprimido, sempre reprimido. Afinal, sou mãe.


 


Sou acordada deste estado de vigília com o barulho estridente de sirenes. Levanto-me, e ao olhar pela janela vislumbro um corpo inerte na esquina, banhado de vermelho. Um pouco atrás um carro. Pessoas, gritos, correria, desnorte. Movida por uma curiosidade que me não é peculiar, visto um robe e desço até a rua.


 


No piso térreo, ao passar pelo porteiro, mudo de nascença, recebo um olhar que me congela o esqueleto. O meu filho… NÃO! O meu filho NÃO!


 


Corro ajoelho-me tomo-o em meus braços sacudo-o energicamente grito histericamente uma revolta mais profunda que tudo. Tantos sacrifícios, tantas privações para quê?


 


O seu sangue cobre-me a pele, encharca-me a alma. Cada momento de convivência passa perante meus olhos, como um trailer rápido. Minha pele arrepia-se, os meus olhos. Toco-o, o peito, os braços, as pernas, o sexo, a cabeça, os olhos, os olhos, a boca. Aproximo a minha boca dele, provo-lhe o sangue. Nunca nada me pareceu tão doce.


 


Momentos depois, completamente atordoada, acordo com um leve toque em meus ombros, alguém vestido de branco. Um anjo? Talvez o demônio.. enxofre.


 


Sigo-o, pois nos seus braços flutua agora o meu filho, a minha vida. Entra na ambulância.


Sigo-o.


 


Andréa Motta


31.03.04


publicado por Andrea Motta às 13:06
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30 comentários:
De Andra a 19 de Maio de 2004 às 00:31
Para eu: Pois é Lúcia, nem sempre é possível agradar gregos e troianos. Paz no seu coração.
De eu a 19 de Maio de 2004 às 00:01
Que porcaria!
uhauhauhuahauhuahuahuhu
De Andra a 17 de Maio de 2004 às 21:22
Para Ricardo Mainieri: Oi, meu querido, fico feliz com seu cometário. O Texto passa mesmo mais ou menos pelo que descreveste. Beijo-te
De Ricardo Mainieri a 17 de Maio de 2004 às 19:23
Andréa :

Já conhecia,anteriormente, este conto.
No entanto, vejo que vc. retrabalhou certas partes, acescentando mais dramaticidade e concisão.
O texto encerra uma reflexão urgente. Será que é da natureza feminina a maternidade? É uma escolha,ou acontece à revelia?
Qual o papel do homem nisso tudo? Participar daqueles quinze/vinte minutos prazerosos e ,depois, trazer o vil metal para casa?
Só isso? Onde entra o lado feminino, a anima, oculta em todos nós?

Além destes questionamentos, oconto se sustenta por sí.Pelo ritmo, pelo final inesperado e aberto. Pelo derramamento emocional.

Por mim, teria sido um dos vencedores do concurso de Contos do NA.

Tb. gosto de vc. quando escreve prosa.
Tão sensível e inteira como em sua poesia.

Beijão.

Ricardo Mainieri
De Ricardo Mainieri a 17 de Maio de 2004 às 19:23
Andréa :

Já conhecia,anteriormente, este conto.
No entanto, vejo que vc. retrabalhou certas partes, acescentando mais dramaticidade e concisão.
O texto encerra uma reflexão urgente. Será que é da natureza feminina a maternidade? É uma escolha,ou acontece à revelia?
Qual o papel do homem nisso tudo? Participar daqueles quinze/vinte minutos prazerosos e ,depois, trazer o vil metal para casa?
Só isso? Onde entra o lado feminino, a anima, oculta em todos nós?

Além destes questionamentos, oconto se sustenta por sí.Pelo ritmo, pelo final inesperado e aberto. Pelo derramamento emocional.

Por mim, teria sido um dos vencedores do concurso de Contos do NA.

Tb. gosto de vc. quando escreve prosa.
Tão sensível e inteira como em sua poesia.

Beijão.

Ricardo Mainieri
De Ricardo Mainieri a 17 de Maio de 2004 às 19:23
Andréa :

Já conhecia,anteriormente, este conto.
No entanto, vejo que vc. retrabalhou certas partes, acescentando mais dramaticidade e concisão.
O texto encerra uma reflexão urgente. Será que é da natureza feminina a maternidade? É uma escolha,ou acontece à revelia?
Qual o papel do homem nisso tudo? Participar daqueles quinze/vinte minutos prazerosos e ,depois, trazer o vil metal para casa?
Só isso? Onde entra o lado feminino, a anima, oculta em todos nós?

Além destes questionamentos, oconto se sustenta por sí.Pelo ritmo, pelo final inesperado e aberto. Pelo derramamento emocional.

Por mim, teria sido um dos vencedores do concurso de Contos do NA.

Tb. gosto de vc. quando escreve prosa.
Tão sensível e inteira como em sua poesia.

Beijão.

Ricardo Mainieri
De Ricardo Mainieri a 17 de Maio de 2004 às 19:23
Andréa :

Já conhecia,anteriormente, este conto.
No entanto, vejo que vc. retrabalhou certas partes, acescentando mais dramaticidade e concisão.
O texto encerra uma reflexão urgente. Será que é da natureza feminina a maternidade? É uma escolha,ou acontece à revelia?
Qual o papel do homem nisso tudo? Participar daqueles quinze/vinte minutos prazerosos e ,depois, trazer o vil metal para casa?
Só isso? Onde entra o lado feminino, a anima, oculta em todos nós?

Além destes questionamentos, oconto se sustenta por sí.Pelo ritmo, pelo final inesperado e aberto. Pelo derramamento emocional.

Por mim, teria sido um dos vencedores do concurso de Contos do NA.

Tb. gosto de vc. quando escreve prosa.
Tão sensível e inteira como em sua poesia.

Beijão.

Ricardo Mainieri
De Ricardo Mainieri a 17 de Maio de 2004 às 19:22
Andréa :

Já conhecia,anteriormente, este conto.
No entanto, vejo que vc. retrabalhou certas partes, acescentando mais dramaticidade e concisão.
O texto encerra uma reflexão urgente. Será que é da natureza feminina a maternidade? É uma escolha,ou acontece à revelia?
Qual o papel do homem nisso tudo? Participar daqueles quinze/vinte minutos prazerosos e ,depois, trazer o vil metal para casa?
Só isso? Onde entra o lado feminino, a anima, oculta em todos nós?

Além destes questionamentos, oconto se sustenta por sí.Pelo ritmo, pelo final inesperado e aberto. Pelo derramamento emocional.

Por mim, teria sido um dos vencedores do concurso de Contos do NA.

Tb. gosto de vc. quando escreve prosa.
Tão sensível e inteira como em sua poesia.

Beijão.

Ricardo Mainieri
De Andra a 17 de Maio de 2004 às 00:21
Para Maria: Obrigada querida. Boa semana pra ti. Beijos
De Maria a 16 de Maio de 2004 às 20:15
Lindissimo...

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