Quinta-feira, 5 de Agosto de 2004

O Seio Esquerdo

seio.jpg



  • Fotografia by Milton Carelo

Aconteceu.
Ninguém espera
E, na primavera,


Foi-se o seio esquerdo.
Foi-se o toque,
Ficou a sensação fantasma


Foi-se o alimento,
Ficou o vazio no peito.


Como ser mulher, sem o seio esquerdo?
Como ser mãe, sem a mama esquerda?
Como ser profissional, sem o outro par?
Como se olhar no espelho, nua?


O seio direito, encabulado,
Só e pendurado,
Emoldurando o luto
Do parceiro canhoto.
Está faltando o outro.


São dois
Originalmente dois.
Há que ser dois.


Nunca mais seus dedos
Apertando a carne macia e rosada
Nunca mais sua boca
A brincar de trincar e arrepiar
Nunca mais a dança sensual
Dos pares no banho
E entre lençóis de cetim.


Há um imenso vazio
Bem maior que a mama
Que atinge camadas profundas
Da própria natureza fêmea.


Há a ausência constante
Lembrada todo o tempo
Pelo traço da cicatriz
Dessa ferida que não fecha.


Há a dor, os ductos, os lutos
Mágoa infiltrante, ingrata, infeliz
Dias vividos sem perceber
E para quê viver?


Olhos que nunca repararam
Agora recusam-se a olhar
Não tem remédio
Não tem escolha


Tem alopécia, náusea e dor
Tem quimioterapia
Tem agonia
Solidão de espinho e flor


Tão falso o enchimento
Disfarça a roupa
Como peruca da alma
Que dribla olhares piedosos
De mulher barbada de circo
Que extirpa seus próprios caroços.


Os dias arrastados, as horas contadas
Quando volta ao normal?
Quando se acorda do pesadelo?
Ou tentar esquecê-lo...


É tão desigual, tão caolha
Fica sem sentido, tão velha
Um robusto, imponente, desejável
Outro, um traço doente, indelével, lamentável.



Luta diária e desanimada
Para sobreviver - corpo sem jeito
Mulher sem peito, que cala o grito
Tempo finito, seio bonito
Que se foi.


Lílian Maial



Nota: Lílian Maial é brasileira, médica, publica em diversos site tais como a Nave das Palavras, Luna’s, Jornal de Poesia, Comunidade Maytê entre outros. Super versátil,  sua poesia vai do clássico (Sonetos) ao Moderno (Poetrix), para conhecer mais sobre a Poesia de Lílian, basta acessar seu site pessoal: Lílian Maial Poesias.

publicado por Andrea Motta às 00:57
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46 comentários:
De Andra a 11 de Agosto de 2004 às 12:39
Para Baby: É querida, as cicatrizes mais profundas são as que ficam na alma. Beijo com carinho.
De MJM a 10 de Agosto de 2004 às 13:38
Conheço este drama por me ser muito próximo. A cicatriz maior n é visível. Nenhuma plástica a reconstrói. Drama q grassa.
De Andra a 7 de Agosto de 2004 às 01:43
Para Jac: Irei lá logo mais, meu anjo. Beijo com carinho.
De JAC a 6 de Agosto de 2004 às 23:10
Agradeço o teu comentário no meu Local Imperfeito. Se fores por lá hoje de novo terás um novo desafio... perdoa mas não sou capaz de comentar este teu artigo.
De Andra a 6 de Agosto de 2004 às 21:33
Para Analfabeto: Obrigada pela visita meu anjo. Beijos.
De analfabeto a 6 de Agosto de 2004 às 15:42
Como homem não sei o que dizer, pois é uma coisa q jamais passarei por ela...
De Andra a 6 de Agosto de 2004 às 14:47
Para Ivan: gargalhadas... só você mesmo para me fazer gargalhar a esta hora!!! Vê porque eu estava sentindo sua ausência??!! Beijo com carinho.
De Ivan a 6 de Agosto de 2004 às 14:43
Nossa andrea... andei sumido mesmo... mmm mas li todos os seus poemas.. como sempre maravilhosos.. adorei a essência do alcrim, essencia da qual também sou fã ;-)

Ou esse poema é louco mesmo... visitei o site da autora... mmm não sabia que o Milton Carelo tinha esse peitão... esquisito!! rsrsrssrrsrsrrsrs =))

Beijos moça... tudo de bom... ;-)
De Andra a 6 de Agosto de 2004 às 12:48
Para Anjo do Sol: É verdade querida, dor e coragem de mãos dadas.. Obrigada pela visita :)) Bom final de semana a você. Beijos.
De Anjo do Sol a 6 de Agosto de 2004 às 10:42
Poema que é voz de tantas mulheres. A dor e a coragem aí de mãos dadas. Poema muito forte e intenso, pela crueza e realidade. Beijos, amiga

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